segunda-feira, 3 de maio de 2010
A graça de ser só. Padre Fábio de Mello
Carta do Padre Fábio de Mello
A graça de ser só.
Ando pensando no valor de ser só. Talvez seja por
causa da grande polêmica que envolveu a vida
celibatária nos últimos dias. Interessante como as
pessoas ficam querendo arrumar esposas para os padres.
Lutam, mesmo que não as tenhamos convocado para tal,
para que recebamos o direito de nos casar e constituir
família.
Já presenciei discursos inflamados de pessoas que
acham um absurdo o fato de padre não poder casar.
Eu também fico indignado, mas de outro modo. Fico
indignado quando a sociedade interpreta a vida
celibatária como mera restrição da vida sexual. Fico
indignado quando vejo as pessoas se perderem em
argumentos rasos, limitando uma questão tão complexa
ao contexto do "pode ou não pode".
A sexualidade é apenas um detalhe da questão.
Castidade é muito mais. Castidade é um elemento que
favorece a solidão frutuosa, pois nos coloca diante da
possibilidade de fazer da vida uma experiência de
doação plena. Digo por mim. Eu não poderia ser um
homem casado e levar a vida que levo. Não poderia
privar os meus filhos de minha presença para fazer as
escolhas que faço. O fato de não me casar não me priva
do amor. Eu o descubro de outros modos. Tenho diante
de mim a possibilidade de ser dos que precisam de
minha presença. Na palavra que digo, na música que
canto e no gesto que realizo, o todo de minha condição
humana está colocado. É o que tento viver. É o que
acredito ser o certo.
Nunca encarei o celibato como restrição. Esta opção de
vida não me foi imposta. Ninguém me obrigou ser padre,
e quando escolhi o ser, ninguém me enganou. Eu assumi
livremente todas as possibilidades do meu ministério,
mas também todos os limites. Não há escolhas humanas
que só nos trarão possibilidades. Tudo é tecido a
partir dos avessos e dos direitos. É questão de
maturidade.
Eu não sou um homem solitário, apenas escolhi ser só.
Não vivo lamentando o fato de não me casar. Ao
contrário, sou muito feliz sendo quem eu sou e fazendo
o que faço. Tenho meus limites, minhas lutas
cotidianas para manter a minha fidelidade, mas não
faço desta luta uma experiência de lamento. Já caí
inúmeras vezes ao longo de minha vida. Não tenho medo
das minhas quedas. Elas me humanizaram e me ajudaram a
compreender o significado da misericórdia. Eu não sou
teórico. Vivo na carne a necessidade de estar em Deus
para que minhas esperanças continuem vivas. Eu não sou
por acaso. Sou fruto de um processo histórico que me
faz perceber as pessoas que posso trazer para dentro
do meu coração. Deus me mostra. Ele me indica, por
meio de minha sensibilidade, quais são as pessoas que
poderão oferecer algum risco para minha castidade. Eu
não me refiro somente ao perigo da sexualidade. Eu me
refiro também às pessoas que querem me transformar em
"propriedade privada". Querem depositar sobre mim o
seu universo de carências e necessidades, iludidas de
que eu sou o redentor de suas vidas.
Contra a castidade de um padre se peca de diversas
formas. É preciso pensar sobre isso. Não se trata de
casar ou não. Casamento não resolve os problemas do
mundo.
Nem sempre o casamento acaba com a solidão. Vejo
casais em locais públicos em profundo estado de
solidão. Não trocam palavras, nem olhares. Não
descobriram a beleza dos detalhes que a castidade
sugere. Fizeram sexo demais, mas amaram de menos.
Faltou castidade, encontro frutuoso, amor que não
carece de sexo o tempo todo, porque sobrevive de
outras formas de carinho.
É por isso que eu continuo aqui, lutando pelo direito
de ser só, sem que isso pareça neurose ou imposição
que alguém me fez. Da mesma forma que eu continuo
lutando para que os casais descubram que o casamento
também não é uma imposição. Só se casa aquele que
quer. Por isso perguntamos sempre – É de livre e
espontânea vontade que o fazeis? – É simples. Castos
ou casados, ninguém está livre das obrigações do amor.
a fidelidade é o rosto mais sincero de nossas
predileções.
A graça desça sobre cada um de vocês meus filhos!
Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo
AMÉM!
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